Eventos climáticos extremos colocam em xeque a segurança da produção no campo. A cobertura do seguro rural ainda é limitada e enfrenta entraves no Brasil. Tecnologia, subvenção e governança são caminhos para ampliar a proteção. “Produtores enfrentam custos crescentes e decisões mais complexas a cada safra”, diz Carlos César Floriano, CEO do Grupo VMX.
O impacto das mudanças climáticas sobre a agricultura brasileira é uma realidade cada vez mais presente.
Estiagens prolongadas, chuvas fora de época, geadas severas e ondas de calor têm comprometido colheitas inteiras, elevando as perdas econômicas no campo.
Nesse cenário, o seguro rural se tornou peça-chave para garantir a continuidade da produção e proteger o produtor dos efeitos do clima.
Apesar da importância, somente uma parcela da área cultivada no Brasil está coberta por algum tipo de seguro rural. Muitos produtores, especialmente os de pequeno e médio porte, ainda enfrentam barreiras para aderir ao sistema de proteção, seja pelo custo elevado, seja pela burocracia envolvida.
Ao mesmo tempo, os eventos climáticos intensos têm encarecido os prêmios e aumentado a complexidade da precificação de riscos, o que limita ainda mais o acesso à cobertura.
Seguro rural não é mais uma escolha: é uma necessidade
A lógica de gestão de risco no agronegócio mudou. Antes, o seguro era visto como uma precaução opcional; hoje, passou a ser uma ferramenta essencial de sobrevivência para produtores que enfrentam, a cada safra, a imprevisibilidade do clima.
A dificuldade em acessar linhas de crédito, por exemplo, está cada vez mais atrelada à existência de cobertura securitária — um movimento que vem ganhando força nos últimos anos.
“Não se trata mais de proteger apenas o patrimônio ou o lucro, mas de garantir a permanência do produtor na atividade”, afirma Carlos César Floriano.
O Brasil ainda carece de uma cultura sólida de gestão de riscos no campo. Enquanto o seguro rural for tratado como uma etapa secundária, a agricultura continuará vulnerável.
A baixa cobertura, somada à ausência de políticas estruturadas de prevenção e incentivo, cria um ciclo de exposição.
Muitas regiões agrícolas importantes seguem desassistidas, mesmo com histórico de perdas. Isso fragiliza a economia local, compromete o abastecimento de alimentos e reduz a atratividade de investimentos no setor.
Carlos César Floriano: “Seguro rural é parte da estratégia de futuro”
O cenário exige mais do que produtos de mercado: é preciso integrar inteligência, governança e tecnologia para que o seguro rural acompanhe a realidade do clima.
A opinião é reforçada por Carlos César Floriano, que vê no cruzamento de dados climáticos e gestão territorial um caminho eficaz para ampliar a previsibilidade e ajustar as apólices às condições reais de cada produtor.
Segundo ele, “Um seguro eficiente começa muito antes do plantio, está na escolha da cultura, no calendário correto, na leitura de dados históricos e na adequação da propriedade aos novos padrões ambientais. Tudo isso influência o risco e, consequentemente, o valor e a efetividade do seguro”.
A ampliação da cobertura depende, também, da presença do Estado. O modelo de subvenção ao prêmio do seguro, no qual parte do valor é custeado por recursos públicos, tem se mostrado eficaz, mas ainda é insuficiente diante da demanda nacional.
A instabilidade orçamentária e a distribuição desigual entre culturas e regiões afetam diretamente a adesão e a eficácia do sistema.
Desafios do campo à mesa
Na prática, a ausência de seguro adequado traz consequências que extrapolam o ambiente rural. A perda de uma safra por conta do clima pode comprometer a renda de famílias inteiras, causar desabastecimento de determinados produtos e pressionar os preços ao consumidor final.
Por isso, o debate sobre risco climático e seguro rural precisa envolver não apenas produtores e seguradoras, mas toda a cadeia de abastecimento.
“Estamos diante de uma transformação que exige maturidade e visão sistêmica”, observa Carlos César Floriano. “O seguro rural não pode mais ser um produto de prateleira: precisa ser desenhado sob medida, com base em dados, tecnologias preditivas e responsabilidade compartilhada.”
O campo brasileiro, cada vez mais exposto às variações climáticas, exige soluções eficazes para proteger sua produção.
Ampliar o acesso ao seguro rural, incentivar boas práticas e promover a educação em gestão de riscos são passos urgentes.